SINOPSE

MONSTRO É AQUELE QUE NÃO SABE AMAR!

Os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu.

 

A ficção do monstro do Dr. Frankenstein nos coloca frente a frente à nossa capacidade de repudiar o que nos é estranho e diferente, de negar amor ao que não compreendemos.Criado em laboratório a partir de pedaços de gente costurados rusticamente e pela ausência de ética e de limites, o ser não foi reconhecido como um semelhante por possuir aparência anormal e feia e, acabou sendo excluído, repudiado e renegado pelo próprio pai.

A estranha criatura, abandonada, sozinha, incompreendida e entregue a própria sorte, se transformou em anjo caído, revoltado pela falta de amor.

Mas, quem é o verdadeiro monstro nessa estória? A criatura de aparência repugnante, ou o criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido?

Essa obra vai completar 200 anos, mas tem muito a nos dizer das diversas mazelas que atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade que vive a mercê de seres humanos bestiais que menosprezam tudo e a todos que lhes parecem inadequados e fora dos padrões estabelecidos.

O monstro do Dr. Frankenstein é a nossa realidade invertida, é a nossa culpa escancarada e jogada em nossas caras, mas que da qual fugimos e negamos qualquer responsabilidade. A criatura é o nosso espelho da vida refletindo nossas falhas mais gritantes, nossa falta de amor com o que nos cerca e com o próximo, e o nosso desrespeito às diferenças.

Somos parte de um sistema doentio, onde uma desigualdade se alimenta do descaso, formando uma geração dominada pelo caos e vitimada pelo abandono. É a banalidade do mal, do sofrimento alheio e da própria vida humana.

Na atual realidade brasileira, somos criaturas falando línguas diferentes e aparentemente indecifráveis para os governantes, perambulando incompreendidos e esquecidos pelos becos, ruas e vielas dessa selva de pedra que um dia já foi o paraíso.

No vai e vem diário, o monstro da violência se alimenta da desigualdade cruel que viola a nossa dignidade. O cheiro constante do medo nos devora a alma e cenas trágicas passam diante de nossos olhos como um filme de terror que retrata vidas que se perdem num instalar de dedos, em cenários reais e angustiantes.

O sonho de uma criança é pintar o futuro em folhas brancas da imaginação e traçar o mundo inteiro na palma da própria mão, mas o que vemos são crianças abandonadas pelos pais e que, longe das escolas, se transformam em pivetes, vendendo balas nos semáforos ou disparando balas de armas que cospem fogo e dor. Por sua vez, os filhos jogam os pais idosos em asilos, feito fardos pesados demais, numa espécie de reflexo invertido.

Cavaleiros do Apocalipse político camuflados com ternos e gravatas espalham a morte, a fome e a violência. O favelado não tem pra onde fugir e o refugiado da seca continua sem esperança de encontrar a terra prometida. Há aves de rapina no poder!

Em templos luxuosos, falsos profetas exploradores da boa fé cobram dízimos celestiais, perseguem crenças diferentes, sufocam manifestações culturais e fomentam uma guerra santa: o sagrado versus o profano, a batucada proibida, a roda de samba coibida, a bebida no boteco, tudo é coisa do “coisa ruim”!

Na base do “cada um que carregue a sua cruz”, os hospitais transmitem doenças que não conseguem curar e as cadeias são laboratórios que transformam homens em monstros sem alma.

Mas, tudo que se constrói ou se destrói, se começa pela base, porque se não se fortalece a base, toda a edificação está fadada ao desmoronamento. E a base, a estrutura de uma sociedade é a cultura. É preciso voltarmos às nossas raízes e nos reinventarmos. E se reinventar não significa mudar a essência ou renegar as origens. Reinventar tem um quê de renascimento, de tornar a ser criança, de redescobrir o poder de amar. Somente o amor e a valorização da cultura impedirão que os monstros da nossa sociedade continuem surgindo, se multiplicando e ameaçando o que temos de mais autêntico.

Cabe a nós sambistas, historicamente marginalizados e excluídos, sempre olhados com estranheza e preconceitos, perseguidos pela cor de nossas peles, pelo colorido de nossas roupas, pela nossa fé ancestral e pela nossa batucada, o alerta, a resistência e o protesto. Algumas vezes nos negaram a alma, outras tantas nos deram uma alma demoníaca, mas nunca conseguiram nos calar, silenciar as nossas vozes e os nossos tambores, porque somos das ruas, das praças, dos botecos, da umbanda e do candomblé, somos malandros boêmios e carregamos na alma a alegria que debocha das dificuldades, mas, se for o caso, afogamos as tristezas com uma cerveja bem gelada.

Portanto, é chegada a hora de retirarmos do baú empoeirado das nossas lembranças, as velhas fantasias da resistência. Nesse cortejo dos excluídos, os verdadeiros monstros da nossa sociedade desfilarão sem máscaras para serem reconhecidos e malhados na quarta-feira de cinzas!

Não, não será agora que o “bispo” dará um xeque-mate no nosso “rei” que é Momo, que é da folia, que é do povo. Mais uma vez a vitória será da velha “dama” e dos “peões”. E assim faremos das ruas o nosso tabuleiro onde jogaremos com a pluralidade marcante de nossa gente. A Escola de samba e a comunidade, ali costuradas pelo amor a nossa cultura se tornarão um só corpo novamente e o samba triunfará mais vivo do que nunca.

A Maria com sua lata d’água na cabeça e o filho nos braços, é a nossa Pietá, é o retrato da luta de nossa gente que apenas deseja ser amada.

Que o velho arlequim nunca desista de beijar a colombina; que o malandro sempre caia de paixão pela sedutora cabrocha; que o pierrot, mais dramático do que nunca, dance um tango de Gardel com a argentina mais caliente. Porque o samba é o palco mais democrático da nossa cultura popular e une irmãos e Hermanos de todos os cantos e bandeiras, festejando as diferenças e celebrando Tratados de Paz sob um céu azul e branco.

Mas se ainda assim, você nos descrimina e não entende o nosso jeito de ser feliz, não nos leve a mal, o monstro é você! Largue o nosso carnaval!

Afinal, monstro é quem não sabe amar!